PROJETO
QUE DESENVOLVE
Há 11 anos, a advogada Célia
Destri, 51 anos, defende os direitos de pessoas que
sofreram danos físicos devidos a erros médicos.
No final de 1990, Célia perdeu um rim por negligência
médica. Ao sair do hospital, decidiu lutar por
justiça. Poucos meses depois, em 8 de janeiro
de 1991, ela fundava a Associação das
Vítimas de Erros Médicos - AVERMES,
no Rio de Janeiro.
Atualmente, a AVERMES
conta com cinco advogados voluntários, comandados
por Célia. Ela e sua equipe brigam por indenizações
em um país onde a Justiça leva até
dez anos para reparar esse tipo de dano. Já ganharam
150 processos e acompanham outros 700. Perfuração
intestinal e de esôfago, instrumentos cirúrgicos
esquecidos em pacientes, negligência em partos
e em cirurgias de miopia são exemplos de casos
defendidos pela associação.

As finalistas e vencedoras de 2002, escolhidas
entre mais de 200 indicações de mulheres
que atuam em todo o país
PANORAMA DA
ÁREA
Os Conselhos Regionais de Medicina
(CRM) são os órgãos responsáveis
pela investigação de denúncias
de erros e práticas antiéticas e cabe
a eles decidir que punição deve ser aplicada
ao profissional - desde advertência, censura confidencial
ou censura pública até suspensão
por 30 dias ou cassação do diploma. O
médico ou o denunciante podem recorrer da sentença
do CRM no Conselho Federal de Medicina (CFM).
Entre outubro de 1999 a dezembro de 2001, o CFM julgou
122 processos. Do total, nove médicos foram suspensos
de suas atividades por 30 dias; três tiveram o
exercício profissional cassado; e 76 receberam
algum tipo de censura.
De acordo com dados do Conselho Federal de Medicina,
existem no país cerca de 263.000 médicos
e 118 faculdades de medicina, sendo que entram para
o mercado, em média, 10.000 profissionais todos
os anos. A maioria se concentra na região sudeste,
apenas 75% deles fazem residência. Para José
Erivalder Guimarães de Oliveira, presidente do
Sindicato dos Médicos de São Paulo e da
Confederação Médica Brasileira,
o número de escolas é excessivo e faltam
incentivos, como bom salário, para que os médicos
se interessem em trabalhar em outras regiões.
"Uma das causas de erro médico é
a baixa qualificação de alguns profissionais,
formados em escolas sem capacidade técnica. Existem
faculdades que não têm um hospital-escola",
exemplifica José Erivalder. "A responsabilidade
é do governo federal, que deveria estabelecer
critérios mais rígidos para a abertura
de escolas e diminuir o número de vagas",
acredita. Para a Organização Mundial da
Saúde, o ideal é um médico para
cada mil habitantes. Em São Paulo, há
um médico para cada 450 habitantes e, no Amapá,
um para cada 2 mil.
Uma das prioridades do Conselho Federal de Medicina
tem sido brigar por uma legislação mais
rígida, que regule a abertura de escolas, e pela
melhor qualificação das mesmas. Entre
os outros fatores levantados pelo CFM para a ocorrência
de erros médicos estão também as
péssimas condições de trabalho.
"O que se chama de erro médico muitas vezes
é um equívoco", acredita Edson de
Oliveira Andrade, presidente do CFM. "Quando avaliamos
uma denúncia levamos em conta as condições
que aquele profissional encontrou. Não dá
para dizer que o médico errou se ele não
consegue tratar o paciente de forma adequada porque
não há o equipamento ou o medicamento
necessário no hospital", justifica Oliveira.
Outro ponto que é preciso considerar na hora
de julgar um profissional, de acordo com Oliveira, é
a reação do organismo do paciente. "Muitas
vezes o médico fez tudo certo, mas o organismo
não reage bem ao tratamento. Boa parte do que
se diz ser erro médico é um mau resultado.
Buscamos sempre a saúde e os que erram são
exceção", diz. Para o CFM, associações
de vítimas de erros médicos são
um exercício de cidadania. "É válido,
mas não se pode trabalhar com o pressuposto que
o médico errou. É preciso analisar de
maneira justa, e é isso que o CFM faz",
conclui.

PERFIL DA
CANDIDATA
Ao se formar em direito pela Universidade
Gama Filho, no Rio de Janeiro, em 1988, Célia
Destri, que era professora em uma escola municipal,
decidiu não abandonar o cargo. Casada com Celso,
técnico em edificações, e mãe
de Andréa, 32, e Débora, 29, nas horas
vagas ela advoga na área de direito de família.
No dia 24 de agosto de 1990, Célia fez uma
cirurgia para retirar um cisto do ovário esquerdo.
Ao retornar para casa, começou a sentir fortes
dores no abdome. Reclamou várias vezes à
ginecologista, que, de acordo com Célia, justificava
como sendo dores psicológicas. No dia 10 de
setembro, às 6 horas, Celso, depois de ouvir
a mulher se queixar de dores a noite toda, resolveu
telefonar para a médica, que, segundo ele,
respondeu que não atenderia naquele horário.
O casal decidiu, então, pedir ajuda a um amigo
cardiologista, que, ao examinar Célia, a levou
imediatamente ao Hospital São Lucas, na zona
sul do Rio de Janeiro, Lá foi constatado que
o ureter, um dos canais que conduzem a urina à
bexiga, havia sido cortado. Dois litros e meio de
urina tinham se acumulado na cavidade abdominal e
o rim esquerdo já não funcionava mais.
Célia foi submetida a uma cirurgia de sete
horas. A ginecologista foi informada sobre o estado
de sua paciente, mas não a procurou no hospital.
Ao acordar no Centro de Tratamento Intensivo (CTI)
e saber que havia perdido um rim por negligência
médica, Célia decidiu lutar por seus
direitos na Justiça. Poucos meses depois, fundava
a Associação das Vítimas de Erros
Médicos (AVERMES),
no Rio de Janeiro, em uma sala emprestada por amigos.
Nesses 11 anos, a advogada encontrou histórias
parecidas com a sua e até piores. Apesar da
morosidade da Justiça - uma vítima pode
esperar mais de dez anos para receber uma indenização
-, ela incentiva as pessoas a não desistirem.

HISTÓRICO DA OBRA
Na AVERMES,
o primeiro processo aberto por Célia foi
contra a médica da qual foi vítima.
A advogada entrou com pedido de descredenciamento
da ginecologista do convênio médico,
que foi aceito. Denunciou-a ao Conselho Regional
de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj),
que julgou o caso e decidiu punir a profissional
apenas com um censura reservada. "Ao longo
desses anos, desisti de entrar com processo ético
profissional nos conselhos de medicina, porque se
perde um tempo enorme e, em geral, só se
faz justiça quando o assunto provoca grande
divulgação por parte da imprensa"
conta Célia. "Peço indenização.
Infelizmente, só quando se mexe no bolso
do cidadão é que realmente dói."
Célia ingressou também com uma queixa-crime
na Justiça e conseguiu a primeira vitória
da AVERMES.
Em 1993, a médica foi condenada a uma ano
de detenção sem direito a sursis
(suspensão condicional da pena). Célia
foi procurada pelo advogado da ginecologista e aceitou
o acordo de ação indenizatória
no valor de R$ 10.000,00, que livrou a médica
de cumprir a pena. "Só então
ela entrou em contato comigo, chorando, desesperada",
lembra a advogada. "Com o dinheiro, comprei
cadeiras de rodas e outros aparelhos para os associados.
Meu rim não estava à venda. Não
queria dinheiro, e sim justiça.
Ao decidir fundar a AVERMES,
Célia saiu em busca das vítimas. Lia
em jornais e revistas matérias sobre erros
médicos, ligava para as redações,
explicava sobre a associação e pedia
o endereço das vítimas. A advogada
ia à casa delas para juntar forças.
"Encontrei pessoas muito traumatizadas, vítimas
de erros gravíssimos, que ficaram entusiasmadas
e me deram uma injeção de ânimo",
relembra. Fez o estatuto, registrou e legalizou
a AVERMES, que
começou a funcionar primeiro em uma sala
emprestada e depois em outra alugada, no centro
do Rio, onde ficou por nove anos, até conseguir
uma sede própria, doada pelas filhas.
A AVERMES está
aberta para qualquer pessoa no município
do Rio de Janeiro. Entre os sócios, há
inclusive médicos. No momento, acompanha
700 processos na Justiça, a maioria de pessoas
muito carentes, vítimas do serviço
público. Aquele que se sente lesado é
orientado pela associação a conseguir
uma cópia do prontuário no hospital
em que ocorreu o acidente e a juntar todos os resultados
de exames, relatórios médicos etc.
O advogado da AVERMES
entra, então, com uma ação
indenizatória. Depois de cinco ou seis anos,
quando finalmente ganha a causa, ele encaminha um
novo processo de ação de execução
da dívida. Pode demorar mais três,
quatro anos para receber a indenização.
Nas Varas Federais o processo chega a levar até
vinte anos, porque os governantes têm de pagar
os precatórios, títulos públicos
que o governo precisa saldar.
EFICIÊNCIA
E PARCERIAS
Em 1995, Célia recebeu
o título de Inovadora do Bem-Estar Social,
da Fundação Ashoka. Em agosto
de 2001, a advogada foi homenageada pela Comissão
de Defesa do Consumidor, na Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB/RJ).
Sem patrocinadores, a AVERMES
se mantém com R$ 2.500,00 por mês,
provenientes da contribuição de
cerca de 30% dos associados, que pagam mensalidade
de R$ 25,00 em média. Os demais não
têm condições financeiras.
"Já pedi apoio ao governo do estado,
da prefeitura, mas nunca consegui qualquer auxílio",
afirma Célia. Quando ela ganha uma sentença,
cobra 20% do total da indenização;
valor revertido para a associação.
Muitas vezes suas filhas ajudam a cobrir as
despesas.
CAPACIDADE
DE MULTIPLICAÇÃO
A AVERMES
é pioneira no Brasil. Em vários
estados foram fundadas associações
semelhantes, que usam o estatuto da AVERMES
- algumas até o mesmo nome
-, mas são independentes, como Paraíba,
Goiás, Bahia, Espírito Santo,
Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
Célia já foi convidada para
participar de várias palestras no Rio
de Janeiro e em outras cidades, como em Foz
do Iguaçu (PR), na 1ª Conferência
de Erro Médico, no SENAC. Publicou
dezenas de artigos sobre erros médicos
em jornais e revistas nacionais e internacionais,
como a alemã Der Spiegel,
e lançou, em 1999, o livro Erro
médico - Julgo Procedente,
da editora Forense, no qual relata algumas
das ações da AVERMES.
IMPORTÂNCIA
DA CANDIDATA
A psiquiatra Lúcia
Cristina Campos Ferreira ressalta a seriedade
do trabalho de Célia. "Sou médica,
sei que há muitos profissionais excelentes,
mas também há erros graves
e corporativismo da classe. A luta de Célia
é dura", afirma Lúcia,
que tem processo em andamento por lesão
na traquéia. Há dois anos,
ela foi submetida a uma gastroplastia (redução
do estômago) e ficou dois meses em
coma. "Houve erro médico e passei
cinco meses no hospital. Fiquei 30 dias
entubada e lesaram minha traquéia",
afirma. "Resolvi processar a equipe
cirúrgica porque me senti enganada.
Eles não informaram o estado real
de minha traquéia e insistiram em
usar cânulas de metal", explica
a médica, que ficou um ano sem poder
falar. Para recuperar a voz, teve de colocar
duas próteses na traquéia,
que perdeu a elasticidade. Nesse período,
a psiquiatra esteve impossibilitada de clinicar
e gastou R$ 50.000,00 em tratamentos hospitalares.
Outra vítima de erro médico
é a funcionária pública
Adevídia de Jesus Santos, que foi
retirar uma verruga da perna e hoje tem
dificuldades para andar. "Era uma cirurgia
simples, mas lesaram um nervo, meu pé
saiu do lugar e minha perna endureceu",
diz ela, que por nove meses não pôde
andar e teve de usar muletas durante muito
tempo. Por meio da AVERMES,
Adevídia está processando
o plano de saúde, já ganhou
em primeira e segunda instâncias e
aguarda agora o julgamento do Superior Tribunal
de Justiça.
COMENTÁRIO
DA CANDIDATA
"Quando fundei
a associação, meus familiares
e amigos achavam que eu não conseguiria
nenhuma vitória, que o laudo seria
sempre desfavorável a mim devido
a união da classe médica.
Mas, no decorrer desses 11 anos, tenho
mais vitórias do que derrotas.
Um médico pode errar, todo profissional
erra. Quando isso acontece, porém,
ele deve assumir o erro, procurar ajudar
e, principalmente, dar toda a assistência
necessária. A quebra da confiança
se dá pelo abandono. Se minha médica
tivesse se mostrado solidária com
a minha dor, eu nunca a teria processado
e a AVERMES
não existiria."

A primeira-dama de São
Paulo,
Lúcia Alckmin,
parabeniza Célia Destri |

As vencedoras Milú Villela,
Célia Destri, Nazaré
Gadelha,
Vanete Almeida e Glória
Perez |
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A vencedora Célia
Destri (à dir.) com a família:
Andréa,
Kaê, Vanessa, Rayane, Débora,
Celso e Enid |
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