| "MUITOS
MÉDICOS ACHAM QUE SÃO DEUSES,
QUE ESTÃO ACIMA DO BEM E DO MAL"
A ADVOGADA QUE
PERDEU UM RIM POR DESCUIDO DE UMA MÉDICA
FUNDOU UMA ASSOCIAÇÃO DE VÍTIMAS
DE ERROS MÉDICOS E JÁ GANHOU 150
PROCESSOS. ELA E SUA EQUIPE BRIGAM POR INDENIZAÇÕES
NUM PAÍS ONDE A JUSTIÇA LEVA ATÉ
DEZ ANOS PARA REPARAR ESSE TIPO DE INJUSTIÇA.
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Ao acordar em um Centro de Tratamento Intensivo (CTI)
sem um rim por negligência médica, a advogada
Célia Destri decidiu não ficar de braços
cruzados. Um mês depois de deixar ao hospital,
em 8 de janeiro de 1991, ela fundava a Associação
das Vítimas de Erros Médicos (AVERMES),
no Rio de Janeiro. Em onze anos, Célia ganhou
150 processos. Atualmente, conta com uma equipe de cinco
advogados, que atendem 700 associados. A primeira vitória
foi contra a médica de quem foi vítima,
a ginecologista Kátia Guimarães Azevedo
Araújo, condenada a uma ano de detenção
em 1993. No dia 24 de agosto de 1990, a advogada fez
uma cirurgia para retirar um cisto no ovário.
Ao retornar para casa, começou a sentir fortes
dores no abdome, mas, ao procurar a médica, ouviu
dela que eram psicológicas. No dia 10 de setembro,
Célia foi internada com urgência no Hospital
São Lucas, zona sul do Rio de Janeiro, onde se
constatou que o ureter, um dos canais que conduz a urina
à bexiga, havia sido cortado durante a retirada
do cisto. Foi, então, submetida a uma cirurgia
de sete horas; 2 litros e meio de urina haviam se acumulado
na cavidade abdominal e o rim esquerdo não funcionava
mais.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) julgou 122 processos
referentes a erros médicos entre outubro de 1999
e dezembro de 2001. Do total, nove médicos foram
suspensos de suas atividades por 30 dias; três
tiveram o exercício profissional cassado; e 76
receberam algum tipo de censura. Na AVERMES,
Célia depara com histórias parecidas e,
muitas vezes, piores do que a sua. Apesar da morosidade
da Justiça - um paciente pode demorar até
dez anos para receber a indenização -,
ela incentiva as pessoas a lutarem por seus direitos.
Por seu trabalho, a advogada é uma das 15 finalistas
do Prêmio CLAUDIA 2002.
CLAUDIA - como se sentiu ao conseguir a condenação
da médica que a atendeu?
CÉLIA DESTRI - Minha revolta era grande.
Eu queria justiça. Quando fundei a AVERMES,
todos diziam que eu era maluca, que não conseguiria
nenhuma vitória, porque a classe médica
é muito unida, e que haveria sempre um laudo
desfavorável à minha causa. No decorrer
desses 11 anos, porém, tenho mais vitórias
do que derrotas. No meu caso, ocorreu uma decisão,
inédita: o juiz condenou a médica a um
ano de detenção, sem direito a sursis
(suspensão condicional da pena). Só então
ela me procurou, chorando desesperada. Aceitei o acordo
de R$10.000,00 proposto pelo advogado dela, que a livrou
de cumprir a pena. Com o dinheiro, comprei cadeiras
de rodas e outros aparelhos para os associados. Meu
rim não estava à venda. Não movi
o processo por dinheiro, e sim por justiça.
CLAUDIA - A médica não lhe deu assistência,
mesmo constatado o erro?
CÉLIA DESTRI - Nenhuma, nem mesmo depois,
sabendo do meu estado grave. A insensibilidade e a desumanidade
dela me levaram a montar a associação.
CLAUDIA - No princípio, como as pessoas chegaram
à associação?
CÉLIA DESTRI - No ínicio dos anos
90, havia grande divulgação de erros médicos
no jornais, mais até do que hoje. Comecei a correr
atrás das vítimas. Ligava para as redações,
explicava sobre a associação e pedia o
endereço das pessoas. Ia à casa delas
e encontrava gente muito traumatizada, vítima
de erros gravíssimos. Ficavam entusiasmadas e
me animavam. Fiz o estatuto, registrei a associação
e comecei a trabalhar em uma sala emprestada por amigos.
CLAUDIA - Quais os casos mais graves?
CÉLIA DESTRI - Os dos meninos Marcos Tadeu
e Bruno, que, por erro médico, vivem em estado
vegetativo. O pai do Marcos, seu Américo, me
procurou porque não tinha condições
de pagar um advogado. Aos 7 anos, o menino entrou andando
em um hospital para fazer cirurgia de adenóide.
Por erro anestésico, sofreu uma parada cardíaca,
o sistema nervoso central foi lesado e ele perdeu a
coordenação motora. Não há
dinheiro que pague, mas, com a indenização,
Marcos, que está com 17 anos, tem uma vida mais
digna. O Bruno foi fazer uma cirurgia de apêndice
e ocorreu a mesma coisa. A ação está
ganha, mas a mãe dele ainda não conseguiu
receber a indenização porque ele estava
internado em um hospital federal, e o processo na Vara
Federal é ainda mais demorado.
CLAUDIA - O caminho para conseguir uma indenização
é longo?
CÉLIA DESTRI - Sim. Há um número
insuficiente de juízes e uma quantidade exorbitante
de recursos. Depois de cinco ou seis anos na Justiça,
quando finalmente a causa está ganha, o advogado
tem de entrar com ação de execução,
que é a cobrança da dívida. Pode
demorar mais três, quatro anos para receber a
indenização. Minha maior dificuldade é
fazer com que o devedor pague a vítima. As leis
brasileiras protegem aquele que deve. Nas Varas Federais
pode levar até vinte anos, porque tem de se contar
ainda com a boa vontade dos governantes para pagar os
precatórios, títulos públicos que
o governo precisa saldar. O Garotinho (ex-governador
do Rio de Janeiro, candidato à Presidência
da República pelo PSB) avisou que não
ia pagar os precatórios e saiu sem pagar. É
vergonhoso.
CLAUDIA - Muitas vítimas de erro médico
acabam desanimando?
CÉLIA DESTRI - As pessoas não vão
atrás de seus direitos porque não acreditam
na Justiça brasileira. Os processos nos Estados
Unidos são bem mais rápidos, e as indenizações
fabulosas. Na França além dos conselhos
médicos, há os conselhos de pacientes,
que participam dos processos contra os médicos
e podem, inclusive, opinar. No Brasil, os Conselhos
de Medicina, únicos órgãos que
podem cassar o direito de um médico de exercer
a profissão, não permitem que se assista
ao julgamento.
CLAUDIA - É raro ver um médico perder
seu diploma?
CÉLIA DESTRI - Desisti de entrar com processo
ético profissional nos Conselhos de Medicina,
porque se perde um tempo enorme e os resultados não
são satisfatórios. Só há
justiça quando ocorre grande divulgação
da imprensa. E, mesmo assim, nem sempre funciona. Como
no caso da Clínica Santa Genoveva, no Rio, onde,
em 1996, 102 idosos morreram vítimas de más
condições de higiene e erros médicos.
Os três sócios da clínica, José
Mansur, Eduardo Quadros Spínola e Maria Teresa
Velloso Spínola, tiveram os registros profissionais
cassados pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de
Janeiro, mas o Conselho Federal de Medicina, em Brasília,
anulou a sentença. E há ainda a famosa
máfia de branco, que entra em ação
quando um juiz nomeia um perito (um médico
que irá julgar o procedimento clínico)
e o acusado procura alguém que seja amigo
desse perito. Um protege o outro, o famoso corporativismo.
Procuro entrar com processo de indenização,
porque, no Brasil, é no bolso que a coisa realmante
dói.
CLAUDIA - Quem pode pedir ajuda à sua associação?
CÉLIA DESTRI - Qualquer pessoa; tenho até
ações de médicos vítimas
de erros médicos. Hoje, minha equipe acompanha
700 processos, a maioria de vítimas do serviço
público. Somente 30% dos associados têm
condições de contribuir com R$ 25,00 mensais.
Quando ganho uma sentença, cobro 20% do total
da indenização, que fica na associação.
Muitas vezes, minhas filhas cobrem as despesas.
CLAUDIA - O número de vítimas de erro
médico continua aumentando. Como explicar isso?
CÉLIA DESTRI - A culpa é da péssima
formação de alguns médicos. É
comum também, nos hospitais públicos,
residentes atenderem sem a fiscalização
do médico formado; aí não sabem
como agir. Nos finais de semana, muitas especialidades
ficam sem médicos e são os residentes
que mais trabalham. É quando acontecem muitos
erros. Joaquina dos Santos, por exemplo teve uma perna
amputada por negligência. Ela levou um tombo em
uma sexta-feira à noite. Procurou o hospital,
mas voltou para casa, porque não havia cirurgião
vascular. Na segunda-feira, ao ser finalmente atendida,
era tarde demais.
CLAUDIA - Quais os erros mais comuns?
CÉLIA DESTRI - Cerca de 40% dos processos
que tenho na associação se referem a partos.
Em geral, porque o bebê passa da hora de nascer
nos hospitais públicos. Há um código
entre os plantonistas, que é p.p.p.p.p.: passar
o pepino para o próximo plantão. Quando
a mulher chega ao hospital perto da troca de plantão,
fica esperando, pois o médico deixa para o outro.
Queixas contra cirurgias dos olhos a laser também
têm aumentado.
CLAUDIA - A senhora acredita que os hospitais públicos
erram mais?
CÉLIA DESTRI - Erram mais porque neles os
residentes costumam trabalhar sem supervisão.
Os hospitais privados são mais cautelosos. É
fácil entender por quê: há dinheiro
na jogada.
CLAUDIA - Existem outras associações
como a AVERMES no
Brasil?
CÉLIA DESTRI - Sinto orgulho por ter sido
a pioneira no país. Associações
como essa são muito comuns em países do
Primeiro Mundo. Após a criação
da minha, foram abertas associações em
vários estados, como Paraíba, Goiás,
Bahia, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Minas
Gerais. Elas têm o mesmo nome, AVERMES,
usam meu estatuto, mas são independentes de nós.
CLAUDIA - O que uma pessoa deve fazer ao se sentir
lesado por um médico?
CÉLIA DESTRI - O primeiro passo é
conseguir a cópia do prontuário no hospital.
de acordo com o artigo 70 do Código de Ética
Médica, o paciente tem direito à cópia
desse documento. É importante juntar também
todos os resultados de exames, relatórios médicos
etc. Procurar, então, um advogado, uma associação
(se houver na cidade) ou a defensoria pública.
CLAUDIA - Existe jeito de evitar ser vítima
de erro médico?
CÉLIA DESTRI - É quase impossível.
O médico pode errar, pois depende do momento,
do local, de uma série de circunstâncias.
O paciente, antes da cirurgia, deve pesquisar - em alguns
fóruns ou em associações como a
AVERMES - se o profissional
responde a processo.
CLAUDIA - Há casos em que o paciente perdoa
o médico e deixa de processá-lo?
CÉLIA DESTRI - Muitas vezes o profissional
se mostra tão solidário com a dor do paciente
que continua seu médico. A quebra da confiança
se dá pelo abandono. Se o médico erra,
deve esclarecer o que aconteceu e dar toda a assistência
necessária. Se minha médica tivesse se
mostrado solidária à minha dor, se não
tivesse me abandonado, eu nunca teria movido o processo
e a AVERMES não
existiria.
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